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Para quem acredita na justiça, hoje é um dia triste. O agente da PSP que assassinou Elson Sanches – um jovem de 14 anos – a 4 de Janeiro de 2009 na Amadora, foi hoje absolvido da acusação de homicídio negligente grosseiro.

Neste Portugal de corporações, maçonarias e congregações religiosas; de corrupção e tráfico de influências; onde se retiram em  três/quatro anos os direitos sociais conquistados nos últimos trinta e cinco anos; se a Justiça deixa de funcionar, o beco sem saída para onde nos empurram não deixa margem para mais nada a não ser uma revolta generalizada.

Para quem não assistiu às alegações finais e à leitura de sentença deste tribunal singular do Juízo Criminal de Lisboa, aqui ficam alguns esclarecimentos.

Provou-se que:

- O disparo do agente da PSP  provocou a morte de Elson Sanches;

- Esse disparo foi efectuado a 11 cm da cabeça do jovem;

- Nesse caso  o agente da PSP estaria á distância de meio metro de Elson, pelo que tinha outras opções de intervenção;

- Elson não possuía qualquer tipo de arma.

Para a absolvição, o advogado de defesa do agente da PSP e a juíza na leitura de sentença alegaram:

- Tudo aconteceu num bairro perigoso;

O que é isso de bairro perigoso? Um sítio onde moram negros, famílias trabalhadoras, exploradas e sem acesso a documentação, com vínculos precários, de famílias sem capacidade financeira para que os filhos frequentem a universidade? Há mais assaltos e crimes violentos na Baixa de Lisboa ou na Quinta da Lage na Amadora? E se numa classificação qualquer preconceituosa isso existe, não é suposto a PSP ter treino adequado se o seu quotidiano é patrulhar esses bairros? Já agora, os jovens moradores desses locais perigosos também são abonados pela justiça por aí morarem quando vão a julgamento? Ou se calhar vão para a prisão mais rápido quando comparado com os que moram noutros locais?

- Perante a falta de iluminação do local em que tudo ocorreu e perante a compleição física da vitima (56kg e 1,71) era impossível ao agente distingui-lo de um adulto;

Qual a diferença? Se fosse um adulto já poderia disparar a matar?

Inconsistência do testemunho dos três amigos da vítima;

E quantas vezes o agente da PSP alterou o seu testemunho? E o que dizer da arma forjada no local do crime por alguém com acesso ao perímetro (presuma-se a PSP) que se provou não ser do Elson?

- A credibilidade do testemunho dos agentes da PSP;

Claro, da corporação que se calhar foi a mesma credível que tentou plantar uma arma sem impressões digitais no local do crime.

Acrescente-se que até aos dias de hoje, nenhum agente da polícia cumpriu pena de prisão pelos jovens que matou na periferia de Lisboa (ver Angoi, PTB e Corvo, por exemplo). O agente da PSP absolvido hoje, nunca deixou de estar ao serviço e assim continuará.

Tendo em conta a moldura penal prevista para homicídio grosseiro negligente (máximo 5 anos), muito dificilmente o agente da PSP cumpriria tempo de reclusão, mas tendo em conta todo o flagrante da situação que rodeou a morte de Elson Sanches, é surpreendente que não haja se quer uma condenação.

Continuamos a tratar a população dos bairros sociais da Grande Lisboa como cidadãos de segunda. Despeja-se para a rua, legisla-se para que se expulse do país e atira-se a matar. Os inteligentes prossecutores destas práticas (governos, autarquias e agora a Justiça) nem chegam a perceber que, camuflados em círculos administrativos, esses territórios representam um terço da população total da Área Metropolitana. Em cada um desses territórios 50% do total da população tem menos de trinta anos de idade.

Não se trata ninguém dessa forma, muito menos a futura maioria populacional da Grande Lisboa. Há uma revolta a chegar.

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4 thoughts on “Sobre Kuku e a Justiça

  1. Pingback: The Lisbon Left Behind | CRISE

  2. Lamentando com pesar a morte do Elson Sanches, gostaria de acrescentar o seguinte,

    A “justiça popular” poderia/deveria ser mais sábia, mais fraterna, ao invés de incorrer nas mesmas incongruências da justiça que acusa.

    A 20 de Março de 2005 os agentes da PSP Paulo Alves – um jovem de 23 anos – e o agente António Abrantes – um jovem de 30 anos – foram baleados mortalmente num “bairro perigoso da Amadora”…

    A 17 de Fevereiro de 2005, o agente da PSP Irineu Diniz – um jovem de 33 anos – foi baleado mortalmente num “bairro perigoso da Amadora”…

    Os três eram trabalhadores, maridos/pais/filhos/irmãos de gente que também trabalha, que também moram em bairros sociais e que passam dificuldades para vencer a sua luta do dia a dia. Gente que sofreu na pele o mesmo que os familiares e amigos do Elson Sanches, só que primeiro.

    Vimos condenados os culpados dos crimes, mas isso não sarou as nossas feridas nem trouxe de volta às nossas vidas quem perdemos.

    Creio que os cidadãos esperam da polícia, o mesmo que a polícia espera dos cidadãos. Ou seja, esperam respeito. Sobretudo o respeito pela sua vida. Tanto – ou tão pouco – bastaria para tudo correr muito melhor.

    Se cada um respeitar o seu próximo, assumir a sua responsabilidades em melhorar, talvez em breve possamos ter finais mais felizes e mais justos.
    Quem puder, que passe palavra.

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