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Contra narrativa do governo, da polícia, da maioria dos jornalistas, comentadores e partidos políticos, é importante fazer algumas contas. O resultado é simples: não existem “profissionais da violência” mas sim uma revolta social generalizada com uma expressão violenta. Mas primeiro as contas.

1. Ao longo do último ano o Ministério Publico abriu processos contra pelo menos 100 cidadãos, numa atitude que se tornou norma em todas as manifestações de carácter autónomo, que não estejam afectas a nenhum partido ou sindicato: Greve Geral 22 Março (acontecimentos do Chiado), manifestação anarquista de 19 de Maio, despejo da casa ocupada na Rua de São Lázaro (31 de Maio), entre outros processos contra membros das plataformas 15O e Movimento Sem Emprego.

2. Nos confrontos de dia 14 de Novembro (greve geral) a polícia identificou mais de 100 manifestantes, tendo acusado perto de uma dezena. Sabemos também que estes 100 manifestantes não são os mesmos 100 manifestantes anteriores. Não perguntem como sabemos: neste momento o movimento social dispõe de uma rede crescente de relações e ferramentas relacionais que permitem que em 24 horas se saiba isto. Fazendo as contas que nenhum jornalista fez, temos, portanto que 200 pessoas são acusadas de se manifestar e de actos de violência em 2012.

3. Vamos considerar que a PSP quando carrega, identifica, persegue ou espanca  em qualquer uma destas manifestações consegue deter no máximo cerca de 10% das pessoas presentes (e no caso da manifestação do 14N esta percentagem é claramente exagerada). Este é um pressuposto que mesmo a PSP aceitará como aproximadamente correcto e que a maioria das pessoas aceita (a doutrina policial deve trabalhar com estimativas semelhantes).

4. Temos portanto (usando os 10% e as 200 pessoas “apanhadas” pela policia) que existem cerca de 2000 “violentos”, de acordo com a narrativa da polícia, da maioria dos jornais e comentadores e partidos políticos.

Várias conclusões se impõem.

1. Não existem “meia dúzia de profissionais da violência”, o número ascende a milhares. Daqui se conclui que não são portanto “profissionais”, mas sim revoltosos.

2. Se somarmos à dedução matemática outros considerandos, de observação dentro das manifestações, e notarmos que no 14N sempre que se incendiava um multibanco, rebentava um petardo ou se partia uma montra de um banco, os manifestantes na envolvência, de todas as idades e feitios, produzia uma ovação (de que fala por exemplo Vítor Belanciano no PÚBLICO: “são pessoas crispadas, com as veias do pescoço dilatadas de gritar irados, à beira do desespero”), o número cresce para uma dimensão social nunca vista no pós-PREC.

3. Acresce notar que, como se verificou também no 15S e 15O, perante o arremesso de pedras e agudizar da tensão, muitos milhares de pessoas não arredaram pé do Largo de S. Bento, criando uma massa de apoio aos que estavam dispostos a arriscar o pelo para radicalizar a luta.

4. Ao abandonar o campo político no tratamento das manifestações e manifestantes e optar pelo campo judicial, o regime e o governo abrem a caixa de pandora do Estado de Direito. É uma opção de quem detém o poder e que historicamente tem sido designada por terrorismo de estado.

5. Paradoxalmente ou não, a única pessoa que arrisca falar sobre tudo isto é o Pacheco Perreira, nomeadamente no texto: Dois Rios Paralelos.

6. Por tudo isto, o regime, e o seu governo, perderam a legitimidade “sociológica”. Nada no último processo eleitoral legitimou esta violência social e física sobre a população portuguesa. Pelo que dificilmente se poderá convencer os revoltosos de que queimar o parlamento é menos legítimo do que OE para 2013.

4 thoughts on “A matemática do conflito social.

  1. Pingback: A meia-dúzia. | Spectrum

  2. “Nada no último processo eleitoral legitimou esta violência social e física sobre a população portuguesa” o tanas. Legitimou sim: chama-se memorando da troika e foi sufragado por 80% dos votos válidos.

  3. Pingback: A matemática do conflito social. Por Crise Maria, 17 Nov 2012 | Comité de Apoio aos Grevistas

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