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A manifestação do dia 14 de Novembro, dia de greve geral, foi mais uma num quadro generalizado de protesto, que se reanimou com a manifestação ocorrida a 15 de Setembro, quando cerca de um milhão de pessoas saiu à rua em muitas cidades do país. Desde esse dia e até à greve geral de 14N, houve vários protestos e em distintos locais, convocados pela CGTP e/ou por diferentes plataformas do movimento social, onde ficou bem clara a rejeição às políticas do governo e da troika. Nesses protestos têm participado activistas, grupos políticos e até partidos, mas também muitos que não têm qualquer filiação deste tipo e que saem à rua num momento em que vêem as suas economias familiares a colapsarem, nenhum futuro à sua frente nem nenhuma esperança no que aí vem.

Apesar desta forte vaga de protestos, como não se via há muito tempo, não se verificou qualquer inflexão no rumo das medidas de austeridade adoptadas pelo governo, antes pelo contrário.

Acresce que, neste período, a PSP, com o beneplácito ou mesmo instruções do governo, agrediu desproporcionadamente, conduziu detenções arbitrárias, usou provocadores e infiltrados, captou imagens dos manifestantes em violação das directivas da CNPD, enfim, todo um mar de ilegalidades e ataques aos direitos fundamentais previstos na Constituição. E a verdade é que este comportamento, que lembra os velhos fascismos, passou em claro, sem que os agentes envolvidos e os seus superiores hierárquicos, incluindo o Ministro da Administração Interna, a quem caberia sempre a última palavra, tivessem sido responsabilizados.

Já do lado dos manifestantes, e por referência a este mesmo período, andará perto das duas centenas o número de arguidos em processos que pouca ou nenhuma substância têm para além de testemunhos falsos e interpretações absurdas de disposições legais, não sendo de ignorar o facto de as instituições judiciárias e, particularmente, o Ministério Público estarem a ser usados pelo poder político e o seu braço policial na tentativa de criminalizar e intimidar o protesto social.

Tendo tudo isto em consideração, falemos das pedras.

Poderíamos dizer, desde logo, que violentas são as medidas de austeridade, que violência é trabalhar mais horas e receber menos, é perder as reformas para as quais toda a vida se descontou, é ter de pagar ainda mais para estudar e ter assistência médica, é suportar os buracos dos BPN, submarinos e quejandos, são os cortes nas prestações sociais, o que não falta são exemplos de como as pessoas têm sido violentadas pelo governo. Ainda nesta linha brechtiana, podemos acrescentar que violentas são as intervenções quotidianas da PSP nos bairros pobres da periferia de Lisboa, a actuação policial nos piquetes de trabalhadores em dias de greve, as acções de fiscalização feitas semanalmente aos imigrantes em muitos bairros de Lisboa, a repressão aos artistas que tentam ganhar a vida na rua, a lista de violências não tem fim.

Mas e as pedras?

Bom, as pedras são o que são. São a raiva e o desespero, o enfado e a impaciência, o cansaço e a ausência de perspectivas. São, no fundo, a consequência de tudo quanto se disse atrás.
Ao contrário do que afirmam o Ministro da Administração Interna e os jornalistas e comentadores acéfalos e acríticos que por aí pululam, não foi uma meia dúzia de profissionais da desordem que esteve uma hora a atirar pedras aos agentes do corpo de intervenção. Durante esse tempo, foram muitos os que se aproximaram da zona onde as pedras eram levantadas do chão para mostrarem a sua rejeição às políticas do governo e a actuação policial atirando a sua pedra. E foram ainda muitos os que, sem atirarem pedras, se mantiveram ao lado dos que o faziam, gritando palavras de ordem e dando protecção contra as investidas de paisanos.

O dia 14 de novembro foi um virar de página no conflito social em Portugal. Pela primeira vez em muitos anos, a recusa em aceitar o monopólio estatal da violência foi massiva. Não, as pedras não foram uma opção táctica ou estratégica, e quem ataca com esta acusação sabe bem a mentira que alimenta. Mas o facto de muitos terem atirado pedras e muitos terem ficado ao seu lado é um sinal de que vai chegando o tempo em que a impotência e o medo começam a dar lugar à revolta, em que as pessoas sentem que não há nada a perder, que não há futuro que possa redimir as agruras do presente. E isto, para quem sonha com um mundo mais justo e mais digno, só pode ser motivo de alegria. De reflexão também, mas de alegria seguramente.

Por fim, uma nota sobre a investida policial de dia 14. O corpo de intervenção da PSP tem como função agir em situações de confronto extremado. É por essa razão que tanto equipamento é disponibilizado aos seus agentes. Vemo-los aparecer em manifestações equipados com cassetetes, gás pimenta e gás lacrimogéneo, shotguns com balas de borracha, armas de munição real, escudos, protecções para todas as partes do corpo, enfim, equipados como se fossem enfrentar os manifestantes mais perigosos do mundo, mais armados, mais violentos. A isso chama-se intimidação.

Mas todo esse aparato bélico não pode deixar de ser considerado quando se avaliam as pedras que foram arremessadas em São Bento. Fala-se em duas dezenas de feridos entre os agentes do corpo de intervenção. Feridos? Com todo aquele equipamento, as pedras fazem pouca mossa. Se assim não fosse, por que razão ficariam os agentes do corpo de intervenção imóveis durante uma hora enquanto centenas de pedras lhes caíam em cima? Se as pedras representassem uma ameaça séria à sua integridade física, alguém com esse poder teria certamente dado ordem para que se pusesse fim ao arremesso das pedras.

A verdade é que esse arremesso serviu – e, para o movimento, cabe pensar nisto de uma perspectiva táctica e estratégica – para justificar o que há muito era desejado pelas forças policiais e sobretudo pelo governo: uma carga sobre os manifestantes com o objectivo claro de os intimidar e afastar do protesto contra as medidas de austeridade já aprovadas e as que estão para vir.

Porém, isto ainda agora começou.

One thought on “As pedras

  1. Pingback: As pedras. Por Crise Maria, 25 Nov 2012 | Comité de Apoio aos Grevistas

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